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Pesquisa de PI – Parte 3: Licenciamento

Nessa sessão buscaremos analisar a existência do licenciamento dentro das instituições e a forma como esse licenciamento tem sido feito. Instituições que buscam licenciar seus ativos de PI têm uma fonte extra de geração de valor com o portfólio além do uso próprio, desde que esse licenciamento não traga nenhum prejuízo à estratégia da empresa.

Além disso, o licenciamento permite uma troca de conhecimentos entre às organizações licenciantes e licenciadoras, o que traz um retorno positivo para ambas as partes. Especialmente para universidades e instituições de pesquisa, o licenciamento dos ativos é uma atividade crucial tanto para geração de renda quanto para difusão das inovações geradas.

A experiência das instituições no licenciamento

Nosso primeiro questionamento foi em relação à experiência das instituições no licenciamento ou transferência dos ativos próprios para terceiros. Podemos observar que a maioria das organizações respondentes (76%) já tiveram ou planejam fazer o licenciamento de algum ativo.

Isso demonstra um grande interesse no licenciamento por parte dessas organizações, apesar do licenciamento de ativos de PI muitas vezes enfrentar barreiras da alta gestão, especialmente em empresas que exploram comercialmente esses ativos. Algumas das razões para essas barreiras estão ligadas ao temor de que o licenciamento prejudique os negócios da companhia por causa da transferência de know how para potenciais competidores e até pelo medo de criar uma concorrência para o produto próprio.

As universidades e instituições de pesquisa, por outro lado, têm um grande incentivo para o licenciamento, como já foi discutido no início da sessão. Por esse motivo, grande parte dos respondentes que indicou já ter feito o licenciamento são universidades e instituições de pesquisa.

Quando observamos o número de ativos licenciados, vemos que as quantidades são muito baixas, mesmo quando falamos de instituições de pesquisa. Isso se deve principalmente às dificuldades envolvidas no processo de licenciamento.

Isso nos leva ao próximo questionamento da nossa pesquisa, sobre as atividades mais desafiadoras no processo de licenciamento ou cessão.

As atividades mais desafiadoras

Entre as organizações que tiveram a experiência com transferência de ativos, a dificuldade mais citada foi o processo de negociação, mas todas as demais dificuldades sugeridas também tiveram um alto número de citações. A única possibilidade que colocamos no questionário e que não foi citada por nenhuma organização como dificuldade foi o processo de diligência da PI existente. Os motivos para que essa dificuldade não ter sido citada podem estar relacionados à ausência do processo nas transferências realizadas ou até mesmo à terceirização desse processo.

Em relação à valoração da PI, uma sugestão que pode facilitar o processo e a posterior negociação é que a valoração seja feita a 4 mãos, com o envolvimento das duas partes. Isso garante que o valor final leve em consideração a percepção de ambos os lados, saindo de uma perspectiva de ganhador-perdedor para uma perspectiva de ganha-ganha.

Em relação à elaboração do contrato, essa pode ser uma atividade especialmente para instituições públicas, que enfrentam uma grande burocracia no processo.

Para entender melhor como é feito o mapeamento de parceiros, investigamos como se iniciou a interação entre as partes envolvidas nos processos de transferência já realizados. Separamos essa análise entre universidades e instituições de pesquisa (26.1) e empresas (26.2).

Podemos ver que, na maioria dos casos tanto em universidades e instituições de pesquisa, quanto em empresas, a iniciativa do contato foi do parceiro. Isso reforça a dificuldade de prospecção de parceiros pelas instituições.

Muitas instituições hoje têm dificuldade de exibir os seus ativos disponíveis para licenciamento pela ausência de uma base de dados unificada com essas informações. Porém, é curioso notar que empresas têm, proporcionalmente, mais casos de divulgação pública de tecnologias que resultaram em transferências de do que universidades e instituições de pesquisa, que têm como objetivo principal com o depósito de patentes o licenciamento.

Buscando facilitar o processo de divulgação de tecnologias a serem licenciadas, algumas bases de patentes, como o PATENTSCOPE, base da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), oferecem a possibilidade de indicar no registro do ativo que a tecnologia está disponível para licenciamento. Porém, o recurso ainda é muito pouco utilizado.

Para que esse tipo de recurso realmente funcione, é essencial que as organizações tenham uma forma de identificar quais os ativos estão dispostos a licenciar. Uma das práticas que pode ser adotada para esse fim é a revisão periódica do portfólio para identificar ativos com potencial de licenciamento, que foi o tema da nossa próxima pergunta.

Assim, podemos ver que apesar de grande parte das instituições ter o interesse em licenciar ativos, muitas delas não fazem e nem planejam analisar seu portfólio periodicamente para identificar os ativos que podem ser licenciados.

Isso dificulta a prospecção de parceiros para esses ativos e faz com que muitos deles acabem “encostados” no portfólio.

Após analisar a organização respondente como licenciante, passamos a olhá-lo como licenciador. Para isso, nossa primeira pergunta foi sobre as instituições que já tiveram essa experiência. Tivemos 52% dos respondentes que já tiveram ou planejam ter a experiência de internalizar ativos de terceiros. É uma diminuição razoável em relação aos 73% dos respondentes que têm intenção de licenciar ativos próprios.

Essa resposta faz mais sentido quando pensamos que uma parcela considerável dos respondentes são universidades e instituições de pesquisa. Para essa parcela, o licenciamento de ativos faz muito sentido, mas a internalização não.

Em relação às maiores dificuldades encontradas, nenhuma organização citou ter tido dificuldades com a prospecção de parceiros. Além disso, um dos respondentes afirmou não ter tido nenhuma dificuldade no processo. Já o processo de diligência, que não havia sido citado como dificuldade do licenciantes, passou a ser uma das principais queixas dos licenciadores. Isso mostra que a responsabilidade da diligência fica mais concentrada nos licenciadores.

 

Em seguida, questionamos sobre como foi feito contato entre as partes nos processos de internalização de ativos de PI. Nesse caso, vemos que uma nova opção na internalização, que não havia sido citada no caso do licenciamento para terceiro. Trata-se de um intermediador, também conhecido como broker, que faz a conexão entre as partes.

A existência de empresas que fazem esse trabalho de intermediação ainda não é tão comum no Brasil, mas é bastante comum no exterior. Essas empresas podem ajudar em diversos passos da internalização de ativos ou licenciamento de ativos próprios, incluindo a diligência, valoração dos ativos, elaboração de contratos, gestão pós transferência, entre outros citados como dificuldades do processo.

 

 

Sobre o Autor

Júlia Couto é analista de negócios da Pris. Mestre em Engenharia de Produção pela UFMG e especialista em Propriedade Intelectual pela LUISS Business School, trabalha com gestão estratégica e valoração de ativos de propriedade intelectual desde 2014. Vem participando da modelagem de negócio do Pris IP Suite, conjunto de ferramentas de gestão estratégica-operacional de ativos de PI desenvolvido pela Pris com o apoio da Fapemig.



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