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Pesquisa de PI – parte 2: Práticas de Gestão Estratégica Adotadas

Nessa sessão buscaremos analisar as práticas de gestão estratégica adotadas pelas instituições participantes. O objetivo é entender como as instituições vêm evoluindo na gestão da Propriedade Intelectual e qual o nível de maturidade alcançado em diferentes organizações.

A gestão estratégica do portfólio é essencial para que as instituições consigam fazer com que seus ativos de PI não sejam apenas um custo e gerem um real valor para a empresa. Trata-se da gestão em alto nível, que não busca apenas manter a validade dos ativos, mas alinhar a estratégia de proteção da PI aos objetivos da organização. Assim, as perguntas detalhadas nessa sessão buscam esclarecer como as organizações vem tratando esses aspectos da gestão.

Apesar de todas as instituições participantes terem sede no Brasil, algumas delas têm também sedes no exterior. Por isso, nosso primeiro questionamento foi quanto ao local onde é feita a gestão de PI. Como resultado, vimos que a grande maioria das empresas (86%) faz a gestão unicamente no Brasil, tendo completa autonomia. A outra parte (14%), faz uma gestão compartilhada entre Brasil e Exterior. Nenhum dos respondentes faz a gestão unicamente no exterior, o que ressalta a importância da área de PI nas instituições brasileiras.

Quanto a importância dada à Propriedade Intelectual na gestão da instituição, apenas 48% das empresas respondeu que a importância é alta ou muito alta. Isso ainda mostra que ainda há um potencial de conscientização da alta gestão de muitas empresas sobre a importância estratégica do tema.

A conscientização sobre o tema para diferentes áreas da empresa é um dos desafios normalmente enfrentados pelas equipes de PI. Algumas estratégias utilizadas por essas equipes para contornar o problema são workshops e palestras em diferentes áreas para aumentar o conhecimento e a preocupação geral com tema.

Já quando analisamos a relação entre a estratégia de PI e a estratégia das instituições, vemos que 53% das respostas indicam um desalinhamento dessas estratégias. Isso é preocupante pois um portfólio não alinhado aos objetivos da instituição tem grande risco de conter ativos que não geram valor para a organização, não proteger ativos que deveriam contar com proteção, entre outras consequências negativas.

Por outro lado, em 19% das instituições a estratégia de PI ajuda a moldar a estratégia da instituição, o que representa uma importância altíssima dada aos ativos de PI e demonstra grande maturidade na gestão estratégica de PI. É importante ressaltar que as empresas que responderam que a estratégia de PI ajuda a moldar a estratégia da instituição não são as que têm os maiores portfolios.

Isso mostra que nem sempre o alto número de ativos de PI reflete maturidade na gestão do portfólio. Inclusive, um portfólio mais enxuto pode indicar que a empresa tem políticas eficientes de controle de custos e avaliação estratégica do portfólio.

Para entender como é feita a avaliação estratégica pré-patenteamento, perguntamos qual são os próximos passos de uma invenção que cumpre os requisitos técnicos de patenteamento. Ou seja, pelos requisitos de novidade e atividade inventiva, a invenção poderia ser aceita como uma patente.

Podemos ver que 38% das instituições afirmou fazer o depósito de todas as invenções que cumpram os requisitos oficiais, sem considerar outras formas de proteção ou avaliar a aderência estratégica e os custos associados. A política de depositar todos os ativos sem avaliação estratégica tem grande risco de resultar em um portfólio inflado e com custo elevado, sem uma geração de valor que justifique o investimento.

Por outro lado, em 57% das instituições há algum tipo de análise pré-patente, que pode ser feita por um comitê, pela própria área de PI ou por algum tomador de decisão. Essa etapa é fundamental para que a instituição invista em um portfólio mais conciso e significativo, no qual os ativos realmente gerem valor.

Em seguida, levantamos os motivos principais pelos quais as instituições protegem uma inovação. Aqui, dividimos as respostas entre universidades e instituições de pesquisa (8 respondentes) e empresas (13 respondentes).

Entre as universidades (gráfico 12.1), podemos ver que os motivos mais comuns da proteção são o posterior licenciamento e cessão dos ativos e melhorias dos indicadores de inovação. Essas respostas estão coerentes com o objetivo de difusão de tecnologia dessas instituições e também com a forma de reconhecimento de pesquisadores baseada em indicadores de patentes e publicações.

Esses objetivos são muito comuns em universidades e centros de pesquisa, mas também foram vistos em diversas empresas. Isso demonstra que algumas empresas buscam outras formas de geração de valor para os seus ativos, além da exploração interna.

Porém, vemos que predominam nas empresas, que realmente fazem a exploração dos ativos, os objetivos mais “tradicionais” das patentes, relacionados à manutenção do diferencial competitivo, ao bloqueio dos concorrentes e à liberdade de operação.

Para avaliar as estratégias de proteção, também fizemos uma análise independente das respostas de universidades e instituições de pesquisa (13.1) e empresas (13.2).

Nas universidades e instituições de pesquisa são considerados como alternativas de proteção especialmente apresentações em congressos e a publicação de artigos, já que se tratam de atividades já inerentes à pesquisa.

Já para as empresas, são consideradas como estratégias alternativas principalmente o segredo industrial, que garante a vantagem competitiva, e a publicação de artigos científicos, que

garante a liberdade de operação. Outra opção considerada em algumas empresas é a apresentação em congressos, que também garante a liberdade de operação.

Em algumas empresas, porém, não são consideradas outras opções de proteção para inovações, apenas a proteção por meio de patentes. Essa estratégia de proteção unicamente por patentes pode trazer dois riscos:

  • Portfólios inflados e com altos custos gerados por patentes que não trazem diferencial competitivo, apenas garantem a liberdade de operação. Esse risco poderia ser diminuído com a avaliação da publicação de artigos e apresentação em congressos como alternativa ao patenteamento.
  • Tecnologias importantes e de difícil detecção de infração sendo divulgadas para concorrentes. Esse risco poderia ser mitigado com a avaliação do segredo industrial como opção ao patenteamento.

Nossa próxima análise, também segregada entre universidades e instituições de pesquisa (14.1) e empresas (14.2), trata da abrangência geográfica da proteção.

Considerando que grande parte das instituições têm a patente como uma das formas principais de proteção de novas invenções, é importante analisar como é feita definição da abrangência geográfica da proteção. Com custos elevados para proteção internacional, a escolha assertiva das regiões protegidas é fundamental para a otimização do orçamento da área de PI.

De acordo com as respostas recebidas e apesar da criticidade do processo, a maior parte das instituições não têm critérios definidos e as decisões são tomadas caso a caso. Para as que têm critérios definidos, a decisão se baseia em fatores como localização das operações e localização dos clientes (para empresas) e a localização dos principais players e principais mercados consumidores. Nesse caso, para as universidades e instituições de pesquisa não existe a análise das operações e clientes, já que essas apenas transferem a tecnologia, não fazendo a exploração da mesma.

Em seguida, analisamos o controle das empresas sobre a utilização dos seus ativos de PI e o motivo para que ativos deixem de ser utilizados. A análise da não utilização dos ativos é importante pois é um dos pontos a ser avaliado em um processo de revisão do portfólio.

Em relação ao controle da não utilização dos ativos, 33% das instituições afirmaram ter um controle baixo ou muito baixo da utilização dos ativos, 19% afirmaram ter um controle médio da utilização dos ativos e 48% afirmaram ter um controle alto ou muito alto da utilização dos ativos. O baixo controle da utilização do portfólio pode levar à perda de oportunidade de licenciamentos (ou cross license) para concorrentes ou não concorrentes e até à manutenção de ativos obsoletos no portfólio.

Neste ponto, vemos que ainda existe uma oportunidade a ser explorada no que diz respeito à definição de uma metodologia para a gestão e revisão periódica do portfólio em algumas instituições.

Quanto ao motivo de não se utilizar os ativos, o mais citado foi a obsolescência desse ativo. Também foram muito citados a mudança de estratégia, o nível de maturidade da tecnologia, baixo interesse de terceiros no licenciamento e falta de relevância do tema Propriedade Intelectual para a organização.

Motivos menos citados foram o objetivo do ativo ser apenas bloquear concorrente e a equipe ser limitada para ofertar a tecnologia para licenciamento. Porém, no caso do bloqueio de concorrentes, mesmo que a tecnologia não esteja de fato sendo usada nas operações, ela estará cumprindo o papel para que foi depositada, impedindo os concorrentes de utilizar aquela tecnologia. Nesse caso, poderíamos considerar a tecnologia como utilizada.

Entre os temas mais citados, a obsolescência dos ativos, mudança estratégica e baixo interesse de terceiros para licenciamento poderiam ser detectados por meio de revisões do portfólio periódicas. Com base nessas revisões, ativos que não trazem mais diferencial competitivo poderiam ser licenciados, cedidos ou até abandonados.

Nossa próxima pergunta então foi em relação à revisão periódica do portfólio, visando o abandono de ativos. Para uma melhor análise, separamos as repostas entre universidades e instituições de pesquisa (17.1) e empresas (17.2).

Entre as universidades e instituições de pesquisa, a maioria (86%) não faz atualmente a revisão do portfólio visando abandono, apesar de 57% ter o interesse em fazê-lo. Nas empresas, a maioria indicou já fazer essas revisões periódicas e ainda 31% tem planos de fazê-la no futuro.

Esse maior índice de universidades que não fazem a revisão pode se dar por dois motivos principais. O primeiro é uma equipe reduzida dos NITs combinada com a descentralização dos pesquisadores em diversas unidades das universidades. Isso traz dificuldades para o levantamento de informações técnicas e de mercado suficientes para justificar o abandono de uma patente. O segundo é relacionado ao reconhecimento das instituições que têm mais patentes, o que incentiva a manutenção desses ativos mesmo que eles não tragam nenhum retorno.

A ausência do processo de revisão propicia o acumulo de ativos que não trazem nenhum ganho para a organização e que consomem o orçamento que poderia ser usado, por exemplo, para aumentar a cobertura geográfica de proteção de ativos realmente são valiosos.

Assim, a ausência desse processo em grande parte das instituições é coerente com os resultados anteriores, onde boa parte dos respondentes afirmou manter ativos que não são mais utilizados e não geram mais diferencial competitivo.

Dentre as instituições participantes que fazem a revisão de portfólio visando abandonos de ativos ou têm planos de fazê-la, as instituições responderam sobre qual é (ou será) a periodicidade dessa revisão. As respostas variaram bastante (gráfico acima). Essa variação é normal e não há uma frequência correta ou mais recomendada. A periodicidade deve ser determinada com base no tempo de vida das tecnologias protegidas pela empresa e pela dinâmica estratégica da organização.

A pergunta seguinte também é sobre revisão de portfólio, mas visando a divulgação interna das tecnologias mais interessantes para a organização. Apenas 5% das instituições afirmaram já ter essa prática.

A divulgação interna das tecnologias demonstra um alto nível de maturidade na gestão estratégica, possibilitando que tecnologias antes usadas em áreas específicas sejam adaptadas para outras áreas, não ficando restritas à sua aplicação inicial. Isso traz um aumento de valor expressivo dos ativos de PI, já que seu benefício passa a ser multiplicado.

A ausência dessa prática, por outro lado, pode gerar um acúmulo no portfólio de ativos não utilizados ou subutilizados, ocultado um grande potencial de geração de valor.

Em seguida, procuramos levantar a política das organizações em relação ao monitoramento tecnológico, tanto para o acompanhamento do estado da arte como para mapear a estratégia de concorrentes. Mais da metade dos respondentes indicou não ter atividades de monitoramento tecnológico em sua política atual.

Os riscos de não se fazer um monitoramento tecnológico são diversos. Corre-se o risco de investir em tecnologias que já estão sendo protegidas ou divulgadas por outras instituições, perder o timing em relação as disrupções tecnológicas, perder a oportunidade de investir em desenvolvimentos conjuntos e cross licence, entre outros.

Provavelmente conscientes da importância e desses riscos, 86% dos respondentes já fazem ou planejam fazer o monitoramento tecnológico periódico.

Nossa próxima pergunta diz respeito ao monitoramento de infrações de marcas e patentes. Aqui também dividimos os resultados por universidades e instituições de pesquisa (21.1) e empresas (21.2).

Sobre o monitoramento de infrações dos ativos de PI, é importante ressaltar que essa é uma responsabilidade da empresa e não dos órgãos nacionais responsáveis, como INPI, USPTO e EPO. Apesar disso, 87% das universidades e instituições de pesquisa e 46% das empresas não fazem esse monitoramento atualmente nem para marcas nem para patentes.

A ausência do monitoramento de infrações tem um grande impacto no valor da proteção das marcas e patentes, especialmente quando o objetivo dessa proteção é a geração de vantagem competitiva e o bloqueio de concorrentes. Isso porque, para que esses objetivos sejam de fato alcançados, é preciso garantir que outras instituições não estão utilizando indevidamente os ativos protegidos.

Por isso, um dos pontos importantes para avaliação da patenteabilidade é a viabilidade de se fazer o monitoramento de infrações dos ativos. Especialmente para o caso de patentes de processo, quando é inviável a detecção das infrações, a proteção acaba perdendo muito do seu valor.

Como os objetivos relacionado ao bloqueio de concorrentes e geração de diferencial competitivo são mais comuns em empresas do que universidades e instituições de pesquisa, é coerente que tenhamos mais empresas que façam esse monitoramento. Porém, mesmo para as outras instituições, esse monitoramento é importante, pois impede que empresas utilizem as tecnologias desenvolvidas nessas instituições sem autorização, incentivando o licenciamento.

Por último, para encerrar nossa sessão sobre as práticas de gestão estratégica, perguntamos qual seria a melhor descrição da situação atual da cultura de PI nas organizações. Foi interessante perceber que quase metade dos respondentes (47%) considera que a cultura de PI é bastante disseminada na instituição. Isso mostra que, apesar de muitas instituições ainda não terem políticas mais avançadas de gestão estratégica, como monitoramento de infrações e revisão de portfólio, a PI é bem disseminada em grande parte delas.

Considerando também que outros 48% dos respondentes consideram que PI é um assunto novo na organização e por isso ainda não tem a devida disseminação, acreditamos que em um horizonte próximo tanto a disseminação da cultura quanto a adoção das melhores práticas se tornarão mais presente nas organizações.

 

 

Sobre o Autor

Júlia Couto é analista de negócios da Pris. Mestre em Engenharia de Produção pela UFMG e especialista em Propriedade Intelectual pela LUISS Business School, trabalha com gestão estratégica e valoração de ativos de propriedade intelectual desde 2014. Vem participando da modelagem de negócio do Pris IP Suite, conjunto de ferramentas de gestão estratégica-operacional de ativos de PI desenvolvido pela Pris com o apoio da Fapemig.



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